Sobre a alucinação visual e a artêmia negra voadora

Na labuta da edição das imagens pós-viagem. Que é gostoso. Chato mesmo é apagar as toneladas de imagens que deram errado. Mas acabei a primeira rodada, e encontrei imagens que me ajudam a explicar o post sobre minha primeira alucinação visual:

- a primeira foto é mais ou menos o que eu vi. Só que era pura silhueta. Mas veja esse rabo. Esse rabo é incrível e inconfundível.

- as fotos 2 e 3 dão uma ideia do bichinho em voo. Mas no primeiro voo, ele estava mais alto ainda, muito alto, não dava pra ver cabeça, vermelho do papo, branco do corpo, era só uma forma negra com um formato absurdo.

Minha primeira alucinação visual

Sem querer fomos parar na Argentina, graças a um guia ornitológico que tem noções engraçadas de distância. Nos dias em que rodamos pouco, foram 400 km de estrada. Jantar depois das 23h, 23h30. Dormir de 3 a 4 horas por noite, dormir bastante no carro.

De repente estávamos num dos únicos lugares do mundo em que é possível ver esse bicho maravilhoso, a tesoura-do-campo (Alectrurus risora), espécie ameaçada de extinção. Há um registro dela no Brasil, feito agora em agosto de 2012, em Bonito – MS.

Eu queria muito ver. Mas não desesperadamente, só queria muito. Quando estamos desesperados nossa mente faz coisas estranhas, imagino. Mas apesar de achar que eu não estava desesperada, não sei explicar direito o que eu vi.

Tínhamos visto uma fêmea. Quem não é do meio ornitológico nem fã de programas de natureza não imagina, mas na natureza, as fêmeas são os bichos discretos, sem graça e sem cor, e os machos são os exuberantes. Porque os machos têm que convencer a fêmea a dar (o poder do passivo), e a fêmea têm que ficar num ninho e cuidar de filhotes (embora muitas vezes o macho ajude nessas tarefas também), e é melhor que ela tenha cores discretas. Bom, no mundo natural a fêmea não precisa de nenhum atrativo, e quando você está buscando a foto de uma espécie, você sempre torce pra ver o exibido do macho, não a recatada da fêmea.

Já tinha uma foto ruim da fêmea, mas estávamos lá, buscando o macho. Penso ter visto algo, olho pra trás, e vejo contra a luz a silhueta desse bicho, e veja bem, é uma silhueta inconfundível. Não dá para confundir com capim nem com outra ave. Desvio os olhos por um segundo para abaixar totalmente o vidro e conseguir me virar para trás e garantir uma primeira foto – mas ele não está mais lá. Olhamos em volta, vasculhamos, e nada do bicho.

Rodamos mais um pouco e depois vimos finalmente o macho, glorioso, até de perto. E uma cena que eu não esperava: ele voando alto no céu, uma forma inexplicável, quase não se vê o corpo, só as penas dessa cauda impossível. Criadores de peixes ornamentais sabem o que é uma artêmia. A melhor comparação que tenho é dizer que era como ver uma artêmia negra gigante voando flutuando alto no céu.

Quando finalmente vimos o macho, de verdade, descobri duas coisas: ele era menor do que a primeira silhueta que eu tinha visto e, quando foge, nunca desaparece: sempre pousa em algum lugar não muito longe de onde estava. No geral ficava longe demais para foto, mas ainda era possível vê-lo, com esse formato inconfundível.

Concluí que tive minha primeira alucinação visual.

Ou, talvez, tenha visto por uma fração de segundos a alma do tesoura-do-campo, ou  entidade que o representa, a tesoura-do-campo em outro plano.

Muitas e muitas vezes vemos pássaros-folha, pássaros-tronco, e Occam me diria que foi esse o meu caso. Mas eu vi o formato perfeito das penas da cauda, longas e definidas, de um jeito que nenhum capim podia imitar. O corpo, o bico pequeno. Não era um pássaro-capim. Foi uma alucinação, ou uma visão.